terça-feira, 9 de julho de 2013
Conto de amor IX
Eles moravam distantes e namoravam escondidos, então, no fim de semana, era praticamente impossível que se falassem de alguma forma. Ela, além de ter que escondê-lo dos pais e de seu "amigo", era muito ocupada e tinha compromissos a honrar no sábado e no domingo. Compromissos que a consumiam por completo, mas que mesmo diante de tanta confusão em sua cabeça, não conseguia parar de pensar nele. Ele, de olho no celular a cada vinte segundos, pedindo aos céus para que ela lhe mandasse um "oi", nem que fosse nos segundos em que estivesse no WC. Sentiam falta um do outro a cada segundo que se passava. Sábado a noite, quando enfim poderiam ficar juntos, ela estava exausta. Ele não poderia lhe exigir mais do que pudesse oferecer, uma vez que o mundo cruel lá de fora já o fizera. Imaginava sua voz doce dizendo "Mo, tô soninho", e todo o mundo desabava sobre sua cabeça. Só lhe restava responder, depois de agradecer a Deus por ser o homem mais feliz e sortudo de todo o mundo: "Vem amor. Imagina estar deitada no meu peito, quando eu estarei lhe fazendo cafuné, e descanse.". Assim era feito. Alguns segundos depois, ele escutava a canção mais linda de todos os anjos, qual seja, o som de sua respiração num sono profundo e sincero. "Deus, ela não sabe quantas noites eu já chorei de alegria por ouvir esse som maravilhoso da sua respiração." Assim, depois de horas ouvindo aquilo, pegava no sono. No domingo, a cena se repetia, sendo ainda mais difícil que o sábado para se falarem, trocando meia dúzia de SMS, pois ela estaria em casa com os familiares, como uma típica família brasileira, tendo também, seus compromissos a serem cumpridos. Ele, morava com dois irmãos menores, não se encaixando no que chamei agora há pouco, em "típica família brasileira", muitas vezes passando todo o dia dentro do quarto, olhando o movimento do ventilador, imaginando quando ela iria ser sua, de fato. Noite adentro, a cena que se via era exatamente igual à da noite anterior. Ambos passavam a semana inteira desejando que o fim de semana não chegasse. Inútil. Uma hora ele sempre vinha. Depois vinham as segundas feiras. Ahhh segundas feiras. Para muitos, o pior dia da semana. Não para eles. Que poderiam, enfim, "estarem juntos". Os olhos, ainda sonolentos, brilharam ao olhar o telefone e ver que ela estava ligando. Desligou e retornou a ligação, como de praxe. Parecia estar no céu, num universo paralelo, num mundo inexistente, quando a ouviu dizer bom dia. Era como se o fim de semana jamais tivesse acontecido. Seu mundo se encheu novamente de cor e tudo o que lhe havia feito chorar nos dois dias anteriores simplesmente desaparecia. Desenvolveram o assunto, como de costume. Ainda lembro como ontem. Um mais manhoso que o outro. Um mais necessitado de atenção que o outro. Um mais apaixonado que o outro. Foram horas rindo e, de alguma forma, tentando fazer com que o fim de semana não tivesse ocorrido. Chega então, a hora temida: a despedida. Onde ambos já começam a sentir os olhos marejados, e a saudade apertando de novo no peito, como outrora. Foi aí que ela lhe surpreendeu, falando baixinho, quase imperceptível: "Fica comigo??" Ele incrédulo, perguntou: "O quê?" Ela falou mais firme, ainda que com a voz mais manhosa do mundo: "Não vai trabalhar não. Fica comigo. Por favor." Ele não acreditou. Ficou parado, processando aquela informação por alguns segundos, que lhe pareceram horas. Voltou à Terra ao ouvir a voz dela: "Mo?" Será que ela tinha noção do que lhe acabara de pedir?? Que ele poderia perder o emprego, que poderia fazer uma besteira, que certamente, depois de um pedido feito daquela maneira, ele iria atendê-lo? Se sentiu, outra vez, o homem mais feliz do mundo, com lágrimas escorrendo pelos seus olhos, desesperadas, numa sincronia e alegria tremendas. Pensou, pensou, pensou e, por fim, arrumou uma maneira de atender aquele belo pedido, que foi, um dos melhores presentes que ela lhe dera. Foi, indiscutivelmente, um dos melhores dias que ele viveu em toda a sua vida.
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