"Agora eu sempre tinha pesadelos, todas as noites. Não pesadelos, na verdade, não no plural, porque sempre era o mesmo pesadelo. Seria de imaginar que eu ficaria entediada depois de tantos meses, que acabaria imune a ele. Mas o sonho nunca deixava de me apavorar e só terminava quando eu acordava aos gritos. (...) Queria poder sentir o torpor de novo, mas não conseguia me lembrar de como o conseguira. O pesadelo importunava minha mente e me fazia pensar em assuntos que me provocavam dor. (...) Mesmo enquanto afugentava as imagens, senti meus olhos cheios de lágrimas, e a dor começou a cercar o buraco em meu peito. Tirei uma das mãos do volante e coloquei-a no peito, para não perder o controle.
Será como se eu nunca tivesse existido. As palavras passavam por minha cabeça sem a clareza perfeita da alucinação da noite anterior. Eram só palavras, sem som, como se estivessem impressas numa página. Só palavras, mas abriam ainda mais o buraco, e eu pisei no freio, sabendo que não devia dirigir enquanto estivesse tão incapacitada. Eu me curvei, comprimindo o rosto contra o volante e tentando respirar sem pulmões.
Perguntei-me quanto tempo aquilo ia durar. Talvez um dia, anos mais tarde - se a dor diminuísse a um ponto que eu pudesse suportar -, eu fosse capaz de olhar o passado, aqueles poucos meses que sempre seriam os melhores de minha vida. E, se fosse possível que a dor se atenuasse o suficiente para me permitir isso, eu tinha certeza de que me sentiria grata pelo tanto que ele me dera. Fora mais do que eu pedira, mais do que eu merecia. Talvez um dia eu conseguisse ver os fatos desse modo.
Mas e se o buraco jamais melhorasse? Se as bordas feridas nunca se curassem? Se o danos fossem permanentes e irreversíveis?
Eu me controlava. Como se ele nunca tivesse existido, pensei desesperada. Que promessa mais idiota e impossível! Ele podia roubar minhas fotos e tomar de volta os presentes, mas isso não colocaria as coisas no lugar em que estavam antes de eu conhecê-lo. A prova material era a parte mais insignificante da equação. Eu tinha mudado, meu íntimo fora alterado de modo que ficasse quase irreconhecível (...)"
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